É inverno, os campos são gélidos, o ar é ofuscado pela geada e neblina… As mãos são ágeis, os passos são fortes, com as botas gastas no gelo e na lama.
As trincheiras são profundas, os pés firmes e determinados percorrem pelos trajetos forrados de gelo e lama; os olhos atentos espiam, as pupilas são as sentinelas da alma, com os rostos tapados à carapuças, capacetes à cabeça, ouvidos atentos… de dentro pra fora espiam…. Por alguns instantes o silêncio é sereno, os campos cobertos de gelo ainda cheirando a feno, lembram os tempos de bonança, onde corriam alegres, tanto os jovens quanto os meninos…
O céu vislumbra que a noite será escura, que tudo ficará coberto por um negro manto de desolação… Uns serão sentinelas, outros dispostos à profundidade, descansam em um estreito cubículo, estruturado por troncos de vegetações…. conseguirão tirar uma pestana?
A poucos metros dalí as bombas estouram em ecos profundos, com os corpos cansados, rastejam os entrincheirados, por sobre o gelo e a lama…
O cansaço é extremo, nem pestanejar podem, e nas noites mal dormidas, escutam o uivo dos cães, ao som dos mísseis que caem espalhando os seus destroços…. O chão estremece, o pó vem veloz por sobre as valas onde vivem os entrincheirados….
Os dias nascem tristonhos, o sol não penetra no único e frio cubículo, ladeado por tábuas, presas por pregos que lembram o madeiro, o madeiro de um mártir… o interior lembra o cenário de antigos contos tribais; os utensílios são semelhantes a relíquias, rudes e simples; o café de soldado coado em pano grosso, disposto em bules fumegados pela lenha apanhada as pressas… Os rostos são cansados, as mentes confusas, dos olhos o brilho se foi, as lembranças de infância encravadas nas paredes de madeira, rudes, frias; se não fossem pelas figuras risonhas, coladas e emparelhadas, aquilo tudo se assemelhava com as paredes de frias sepulturas, aonde nem um bocejo se ouve…
Ah! Que saudades lá de casa! Um suspiro retarda o eco dos fogos da artilharia pesada, anunciando que o mundo acordou, que a guerra não terminou, que o marchar das botas gastas, tem quê persistir, tem que percorrer pelas trincheiras, por sobre o gelo e a lama…
De olhos postos nos céus, os corações prescrutam..
Aonde está a bela alva, que dizia o rouxinol ao vento: Leva o meu canto solene a alegrar a toda gente….
Nos dias escuros o verão é como um passado distante, a claridade é revestida por espessas nuvens de pesado manto negro; sem guarda chuvas e capotes, a chuva cai em forma de neve; mas não importa, eles vestem uniformes camulhados, que aliam-se as botas gastas percorrendo entre as trincheiras, à velozes passos, por sobre o gelo e a lama….
As horas são impiedosas e longas, o brilho no céu não é do sol, são riscos do fogo cruzado, que passam velozes por sobre as cabeças, que cobertas por capacetes, implora aos distantes e altos céus: Guarda-nos Deus, da morte atroz galopante, porque, por sobre o gelo e a lama os nossos pés persistirão, até que o último palmo de terra permaneça, na essência da nossa existência….
E seguiremos, persistindo, mesmo que seja, por sobre o gelo e a lama.
Salve a Ucrâine e aos Valentes Soldados!
( Dedicado aos Valentes Soldados Ucranianos)