Bakhmut – Entre os destroços

Em meio aos destroços vivem os sobreviventes de Bakhmut.

Tudo ao redor é destruição; a desolação está explícita nas faces dos ultrajados que vagueiam por entre os edifícios queimados e destruídos pelos mísseis terra ar e que também vêm de alem do mar. Sao muitos os que vagueiam por entre destroços, sentindo um imenso vazio e dor, uma dor que dilacera o peito, a alma, que sedenta de paz, percorre em silêncio as ruas e avenidas ladeadas pela destruição… vão emudecidos, seguindo por estradas desertas em cujo cenário, são as construções em ruínas…as gargantas estão embargadas pelo choro inconsolado, as bocas permanecem fechadas, pala ausência de palavras, porque, se proferidas, seriam de difícil percepção, porque: Como seria traduzir em palavras as dores e conflitos existentes no mais profundo do íntimo dos seres que sofrem pela dor da destruição e aniquilação de povos? Não, nenhuma palavra poderia dar lugar aos sentimentos controversos que se debatem nas almas e nos corpos dos que gemem em meio as tragédias trazidas pela guerra.

Um ano assinala a ofensiva militar russa por sobre povos que nada ou pouco conhecem sobre os poderes que regem a terra.

Difícil é encontrar uma razão para tanta brutalidade e extermínio de povos que d’antes viviam alegremente; onde em pelas praças e jardins floridos, ouvia-se e via-se o brincar das lindas crianças que exalava no ar a paz que emanava da justificada inocência infantil. …

Bakhmut, a cidade da destruição!

Um homem de rosto tristonho, vestes surradas, cabelos em desalinho, de olhos fíxos nos céus, mãos na cabeça, grita em um brado sonoro: Por quê, ó Deus? E deixa-se cair em meio aos destroços… os pensamentos martelando à cabeça vão ditando os bens de primeira necessidade…e murmura baixinho: Talvez haja aqui uma vela ou qualquer coisa assim; tenho a cave as escuras…quem sabe um farelo de pão… as mãos remechem os escombros de cima pra baixo e de baixo pra cima…de repente, um miado ecoa dentre os destroços; é um pobre gato assustado, de olhos esbugalhados, mia com fraqueza e vai recolhendo as patas por entre o rabo…em um rompante feliz, o homem abre um sorriso e brada: Hoje tenho um convidado a dividir o meu espaço; cuidadosamente, recolhe com agrado o ilustre felino e com ele dividirá o pequeno espaço em sua cave triste.

Pela estrada deserta caminha lentamente rumo ao seu refúgio; mais adiante avista uma pequena praça destroçada… nada está igual a d’antes daquele terror da guerra que assola, tanto de dia quanto à noite ; por uns instantes, ele para e descansa, assentado em um pequeno banco de ferro, que sobreviveu do fogo das bombas e mísseis; com o gato ao colo, passeia as suas mãos pelo mirrado corpo do gato, que de imediato vai fechando os olhos….

As horas se passam como se fossem em segundos, o sol de inverno, frio e sombrio, despeja os seus tímidos e últimos raios na linha do horizonte que ele avista, como se fosse uma miragem de um sonho distante…

Mas, aonde está o horizonte que poderá marcar o fim daquela tragédia em Bakhmut?

Ninguém pode dizer, não há quem possa responder a esta enigmática pergunta… ninguém se arrisca a por um fim à terrível guerra que assola a todos de uma só vez, a tragédia à Leste, no coração de Bakhmut.

E por entre os destroços vivem, os últimos sobreviventes de Bakhmut.

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