Suave voz

A tarde estava ensolarada, o sol no cimo do céu parecia tímido, o meu interior estava vazio. Dei alguns passos e olhei, avistei mais adiante uma pequena praça ornada por pequenos canteiros com poucas e solitárias flores; fui até lá, enquanto caminhava pensei: sentar-me-ei por uns instantes e pensarei… não havia ninguém para ocupar os bancos vazios, todos estavam dormindo a sesta. Após uns minutos te chamei, pela primeira vez te chamei…

A tua voz soou em tom grave e nela percebi que o tom grave era também “suave”. As palavras foram breves e precisas; falamos de luz, luzes que conduzidas por entre tetos e paredes ornamentam cantos e recantos, simples ou luxuosos. Ao fim de poucas palavras trocadas, ouvi uma frase que me chamou a atenção e me conduziu à minha infância distante, e disseste-me: Olhe! Não vá se magoar!

Imediatamente voltei ao passado em quando eu era uma menina, em quando o meu pai me dizia: Olhe! Não vá se magoar …

…senti como se o tempo tivesse parado, como se o nada fosse tudo, como se a morte fosse a vida, como se as trevas fossem a luz…ao meu redor o nada passou a ser tudo…e se d’antes não se ouvia nada, logo o vento se fez presente pelo bailar das árvores distantes que dormivam no alto da Serra que rodeava o lugar com majestosa beleza…

Ó quão suave foi a tua voz, quão sereno o teu falar, quão terno parecia ser o teu olhar…

Na maturidade resgatastes a minha infância, naquela tarde ensolarada; até aos remotos tempos me levastes, como se pelas asas de cavalos-alados, fizeste-me pensar que posso continuar a escrever contos como se eu ainda fosse uma menina, em quando eu desenhava casinhas e floresinhas com cores de anil; senti-me como se eu ainda fosse uma criança que brinca de rodas, que canta alegremente e sonha em tocar piano… e se do nada,. em um instante, me transformastes em tudo, com o poder da tua suave voz posso novamente cantar, posso também voar nas asas dos cavalos-alados, em um mundo, que para muitos, é invisível, mas para mim e para ti é visível e palpável, pela força do amor e harmonia que emana da tua doce e suave voz, que traz a tona o que outrora fora perdido.

by Ruthe Cavalcanti

to A.Bernard

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